Bilhões fora das contas do governo

País deixa de contabilizar R$ 578 bi com produção sem controle


Economia subterrânea envolve atividades legais, como o trabalho informal

Foto: Cecília de Sá Pereira/ Aqui PE/D.A Press - 14/8/08


 

A economia subterrânea brasileira atingiu R$ 578 bilhões em 2009. A cifra corresponde a 18,4% do Produto Interno Bruto (PIB) do país e se aproxima do PIB de um país como a Argentina. Os dados são de uma pesquisa divulgada ontem pelo Instituto de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), elaborada em parceria com o Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial (ETCO). A partir de agora, o novo Índice da Economia Subterrânea passa a ser divulgado semestralmente.

 

A economia subterrânea envolve tanto atividades legais, como o trabalho informal e a troca de bens e serviços entre vizinhos, quanto as ilegais, como a venda de drogas e produtos roubados, prostituição, jogo, contrabando e fraude. É toda a produção de bens e serviços que, de forma deliberada, não se reporta aos governos.

 

"Tem uma Argentina escondida dentro do Brasil. Mensurar essa economia pode nos dar uma ideia do que os governos deixam de arrecadar. Eles arrecadam cada vez mais daqueles que pagamporque não conseguem arrecadar dessas atividades subterrâneas", observa Fernando de Holanda Filho, pesquisador do Ibre/FGV.

 

Essa fatia subtraída, que hoje é de 18,4%, já foi maior. A economia subterrânea chegou a morder 21,0% do PIB brasileiro, em 2003, quando foi iniciada a série de estimativas do índice. Em seis anos, o PIB teve um crescimento de R$ 1,7 bilhão para R$ 3,14 bilhões. "Essa queda pode ser atribuída a um ritmo maior de crescimento da economia, porque as empresas também crescem e não conseguem ficar longe do olho do Estado. E também a uma maior oferta do crédito, pois para adquiri-lo é preciso estar formalizado", interpreta o pesquisador. Segundo ele, a tendência é que ele continue em queda caso a economia brasileiro continue crescendo no ritmo atual.

 

O novo índice é considerado uma evolução natural do anterior. O que mudou do início da série para cá foi a metodologia. Foi aperfeiçoada, o que possibilitou, pela primeira vez, que se estimasse o montante movimentado pela economia subterrânea (R$ 578 bilhões). "Apesar de ser uma estimativa, o novo índice é muito mais preciso. E ele será corrigido sempre que o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) corrigir o PIB do Brasil", explica.

 

Para estimar o tamanho da economia subterrânea, o Ibre/FGV e o ETCO utilizaram o método monetário e dados do trabalho informal. No método monetário, estima-se uma equação de demanda por moeda, ou seja, quanto de moeda a Autoridade Monetária deve ofertar para satisfazer a demanda em determinado período, e quanto de imposto é arrecadado. Já os dados sobre o mercado informal foram retirados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE, relacionando o percentual de trabalhadores informais à renda do trabalho gerada por esse segmento.

 

Debate - O próximo Índice da Economia Subterrânea, referente a junho de 2010, deverá ser divulgado em novembro ou dezembro deste ano. Pretende-se, com isso, chamar a atenção da opinião pública e estimular o debate sobre as consequências que a subtração de cifras dessa magnitude, que correm por debaixo dos panos, digamos assim, podem trazer para o país. É uma economia que precariza as condições de trabalho e traz alguns setores ligados ao crime organizado, com prejuízos diretos para toda a sociedade.

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