Dilma enfrenta desafios antes de assumir posto

Fonte: Jornal do Comércio – Porto Alegre/RS – 08/11/2010

Sobram expectativas e não faltam dúvidas sobre a condução da futura presidente Dilma Rousseff em temas considerados prioritários por dirigentes de entidades empresariais e especialistas

“Já estão falando em mais impostos”. O desabafo foi feito pelo vice-presidente da área de metalmecânica da Associação do Aço do Rio Grande do Sul (AARS), Sergio Neumann. Ao ser interpelado sobre projeções para o futuro governo Dilma, Neumann misturou expectativa com leve desassossego. “Não era para baixar tributos? Agora falam em reeditar a CPMF”, criticou o dirigente. Para o setor empresarial, a aposta é que a nova presidente levará adiante a promessa de campanha de desonerar a produção, como investimentos e folha. Dilma disse não ser favorável a mais tributos, mas deixou a dúvida ao citar que há demanda dos governadores.

O ambiente que prepara o futuro governo combina cesta de ingredientes: os espinhosos – juros, câmbio e dívida pública – e os mais palatáveis e desafiantes – economia aquecida e indicadores sociais elevados, ao lado de mercado de vagas.

Dilma no Planalto e Tarso Genro no Estado. A combinação política pode ajudar o Rio Grande do Sul? A expectativa é que qualidades como inovação local e maior peso nas exportações, principalmente de itens industrializados, ganhem mais espaço de acordo com a condução de medidas macroeconômicas. Portanto, o Estado é parte do País e se beneficiará de incentivos que atingirem toda a economia.

O diretor-técnico da FEE, Octavio Augusto Conceição, cita que já houve coincidências no passado. Antonio Britto aqui e Fernando Henrique Cardoso, do qual foi ministro, em Brasília, só que o ambiente econômico era de começo de estabilização. Mas o fato de Dilma ter firmado sua carreira em solo gaúcho dá naturalmente visibilidade. Colega da presidente eleita na FEE, quando Dilma presidiu o órgão entre 1991 e 1994, Conceição, que ocupava o mesmo cargo atual na época, aponta como característica da futura presidente da República o reconhecimento a inovações. “Ela sempre dizia que uma coisa testada inovadoramente aqui emplaca em nível nacional”, recorda o economista.

O prestígio pode vir, por exemplo, pela escolha de nomes do empresariado gaúcho ou da área técnica para escalões de primeira ordem. O presidente da Fiergs, Paulo Tigre, já foi citado. O dirigente sorri e despista quando o assunto aporta nesse setor. “Não existe nada. Não falo sobre isso”, corta Tigre. O atual presidente da ApexBrasil, Alessandro Teixeira, que coordenou o programa de Dilma, é outro forte candidato, cotado para o futuro Ministério da Pequena Empresa. Conceição cita ainda como características da ex-colega o perfil de gestora e que a promessa de responsabilidade com gastos públicos é uma das suas marcas.

*com agências

O Brasil que se espera a partir de 2011

As pedras no caminho

Dilma Rousseff e o presidente Lula se unem contra a chamada guerra cambial, que estaria sendo travada entre maiores potências, hoje Estados Unidos e China. Para o professor de Relações Internacionais da ESPM Christian Tudesco, a política de câmbio flutuante não deve mudar, o que já foi assegurado. “Quem não se adaptou nos últimos cinco anos passa por mais dificuldades”, previne o especialista, advertindo que o período serviu para muitas companhias utilizarem importações para baratear investimentos em insumos e máquinas e ganhar qualidade.

• O câmbio impacta diretamente a eficiência das exportações de itens industrializados, que enfrentam maior concorrência externa e têm o peso do chamado custo Brasil. O resultado é que hoje as commodities ganharam espaço e manufaturados recuam. O dólar, que tenta se equilibrar em R$ 1,70, acumula queda de cerca de 20% desde dezembro de 2008, quando a crise externa foi mais aguda. O atual governo aciona medidas como maior Imposto sobre Movimentações Financeiras (IOF) para controlar o fluxo externo.

• A dívida pública líquida, que poderá fechar em quase R$ 1,8 trilhão, mais de 40% do PIB, é o foco das preocupações. O economista da FGV José Armando Castelar coloca em xeque a promessa de mais investimentos sociais e possibilidade de gastar menos. Segundo Castelar, os custos cresceram o dobro do percentual de avanço do PIB desde 2005. O economista cita que a maior arrecadação, ante crescimento de 7,5% em 2010 e 4,5% em 2011, tem duração limitada.

• Juros altos, menos do que em anos passados, quando a taxa Selic chegou a bater em 40% ao ano, mas que elevam custo de crédito. O ex-diretor-presidente do Movimento Brasil Competitivo (MBC) e consultor José Fernando Mattos não acredita em recuo maior, já que a taxa acaba sendo instrumento para segurar a inflação. Reduzir o gasto público seria primeira ação para retomar cortes. Castelar, da FGV, lembra que mexer na Selic é forma de conter valorização da moeda, mas o temor é de aquecimento de preços.

• Competitividade externa e infraestrutura: o chamado custo Brasil tem forte peso da precária estrutura ou maior preço de transportes e de tributos. Relatório do Banco Mundial (Bird) coloca o Brasil em 129ª posição em competitividade para empresas, considerando fatores de produção à burocracia e  tributos. Movimento empresarial cria comitês para incentivar a inovação, que ocupa menos de 1% dos investimentos do PIB. Estudos de consultorias mostram que na disputa externa, em setores como aço, após igualar eficiência da produção (o Brasil está em segundo lugar, atrás da China), a posição cai a quinto lugar entre maiores players devido à carga de impostos. O preço se eleva em até 40%. O governo promete criar condições para maior inovação. Christian Tudesco cita que o impulso a pequenas e médias empresas para exportação começa a ter diferencial com promessa de criar o Ministério da Pequena Empresa, cujo nome cotado para presidi-lo é o do gaúcho Alessandro Teixeira, atual presidente da ApexBrasil. Mas o especialista em Relações Internacionais previne que a pasta terá de ter instrumentos e papel ativo. “Na Itália, as MPEs respondem por 75% das vendas externas”, compara.

• As reformas: dirigentes e especialistas esperam que finalmente as reformas tributária, previdenciária e até trabalhista possam sair da intenção. O presidente da Fiergs, Paulo Tigre, considera que os temas têm de ser pautados na largada do governo, em 2011.

• Desoneração de impostos que incidem nas vendas externas e também sobre investimentos deve ser uma das medidas, aponta Tudesco. Mas o vice-presidente da Associação do Aço do RS (AARS), Sergio Neumann, defende que não adianta desonerar só o que é de exportação, já que o custo tributário sobre a folha encarece preços.

Os trunfos que ajudam

Os dados das Pesquisas de Emprego e Desemprego (PED) nas maiores regiões metropolitanas reforçam a tese, com elevação das vagas com carteira assinada e recuo do contrato sem registro. Economia em alta irriga o mercado de postos, derruba as taxas de desocupação para níveis mais baixos das séries históricas. Também a renda cresce, alimentando o consumo. Para Dilma, o problema deve ser atender o mercado contratante com trabalhadores qualificados. Problema já registrado em diversos setores.

• Emprego em alta: O presidente Lula enche a boca para contabilizar os 15 milhões de empregos formais gerados em seus dois mandatos. Dilma teve esta estatística a seu favor na eleição. O economista do Dieese Eduardo Schneider destaca que as ações de Lula a partir de 2004 contribuíram para estruturar o mercado de vagas, com impulso à formalização.

• Estudo da PED na Região Metropolitana de Porto Alegre revela que as carências nesta área são mais graves em construção civil, comércio e serviços de alimentação.

Schneider aponta uma ação pública na melhoria da formação e maior eficiência entre oferta de postos nos postos do Sistema Nacional de Emprego (Sine) e os candidatos. “Maior integração dessas políticas gera sinergia positivo para o bom funcionamento do mercado”, adverte.

• Investimentos em infraestrutura: o maior aliado de Dilma será o Programa de Aceleração do Crescimento (Pac). O Pac 1 promete encerrar 2010 com aplicação de R$ 620 bilhões. Já a segunda edição injetará R$ 1,59 trilhão, que avançará além 2014. Até o final do mandato de Dilma, o governo pretende gastar quase R$ 1 trilhão com foco na Copa do Mundo. A Copa e as Olimpíadas de 2016 aparecem como os dois alavancadores somados ao pré-sal dos desafios para a infraestrutura e também para suprimento de equipamentos pela indústria nacional. Na divisão do bolo, energia terá R$ 1,092 trilhão e habitação, R$ 278,2 bilhões, com o carro-chefe do programa Minha Casa, Minha Vida, com nova meta de construção de 2 milhões de moradias. O segmento já gera o boom na construção civil, que no Estado experimenta alta de 12% no emprego formal. A meta de construção ficará ainda aquém do déficit habitacional, projetado em 5,8 milhões de unidades, mais de 80% na área urbana.

Informalidade: Outro canal para melhorar o emprego e turbinar o caixa do governo é o combate à informalidade. O Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial (Etco) da FGV apurou em R$ 200 bilhões ao ano o fluxo deste setor, que é medido pelo Índice da Economia Subterrânea. “O trabalhador informal perde a proteção da lei, o contribuinte paga mais, o consumidor fica sem garantia das compras e o bom empresário tem concorrente desleal”, resume o presidente-executivo do Etco, o economista André Montoro.

• Crescimento econômico: o desempenho do País, que deve protagonizar índices de 4% a 4,5% nos próximos anos e sem o combustível inflacionário,  é caso inédito na história do País, segundo o diretor-técnico da FEE, Octavio Augusto Conceição. Trata-se de herança dos governos FHC e Lula que seria repassada e seria trunfo independentemente do candidato vencedor, salienta Conceição. Para o economista, a estabilidade teve como preço as baixas taxas de crescimento. A diferença de Lula para FHC é que o petista apostou na estabilidade, mas com olho no social. Para o diretor-técnico, as ações da futura presidente devem tentar combinar o equilíbrio fiscal com as demandas na área social. A melhoria na infraestrutura também ajudará na eficiência geral da atividade.

• Metas sociais: um dos saldos mais positivos dos dois mandatos de Lula – migração da população de classes D e E para C e redução do contingente de miseráveis – manterá fôlego nos primeiros anos. Já a meta social de erradicação da pobreza implicará mais gastos. Dilma já projetou que quer universalizar o Bolsa Família, que chegou a 12,7 milhões de famílias este ano, além de prometer aumento. O salário-mínimo também poderá receber mais impulso, com antecipação do aumento do PIB de 2010 para 2011, que só se refletiria em 2012. Proposta vai às centrais sindicais. Como resolver esta equação é a questão número 1 para o novo governo, adverte José Armando Castelar, da FGV. Mais uma vez é a pressão da dívida pública.

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