Margem de lucro da distribuição farmacêutica. Como solucionar?

Por ETCO

Autor: Luiz Fernando Buainain*

Fonte: SEGS Portal Nacional Seguros & Saúde – SP, 09/07/2009

Uma crise financeira tende a, num primeiro momento, não abalar o setor farmacêutico, já que o medicamento é um bem para a recuperação da saúde, não tendo reflexos de demanda em função de preços promocionais ou compra por impulso.
No entanto, quando a crise se dissemina e aflige vários segmentos da economia mundial, torna-se praticamente impossível não sentir os sintomas da turbulência. E as empresas atuantes no atacado, que movimentam em torno de R$ 16 bilhões ao ano, sofreram uma queda na sua rentabilidade, já que os custos do varejo e da indústria registraram alta considerável.

Em toda esta cadeia que envolve o setor de medicamentos, chama a atenção a situação das distribuidoras. O segmento enfrenta a dificuldade da pequena margem de lucro, resultante da redução de descontos praticados anteriormente pela indústria. Com restrição no crédito e prazos de pagamento engessados, estas margens minguaram ainda mais. Porém, a crise econômica apenas agravou um quadro que já vem sendo debatido há muito tempo pelos distribuidores. São várias as dificuldades que o atacado enfrenta e que afetam diretamente o consumidor.

Falta de segurança no transporte, falsificação de remédios, precariedade da malha viária brasileira e aumento da carga tributária são fatores que dificultam a margem de lucro, mas que podem ser solucionados com ações estrategicamente pensadas para melhorar a distribuição de medicamentos no País.

No que diz respeito à segurança, a Abafarma – Associação Brasileira do Atacado Farmacêutico, em parceria com a Anvisa, trabalha para a implantação do Sistema Nacional de Rastreabilidade dos Medicamentos. O procedimento permitirá identificar se o produto tem origem em contrabando, é falsificado ou roubado, diminuindo os erros e os riscos para atacado, varejo e consumidor.

Práticas incompatíveis e não sérias, conforme pesquisa do Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial (Etco), apontam que os impostos devidos sonegados e a mão-de-obra informal representam um risco real. Frente a esses dados, a busca por tecnologias que possibilitem a rastreabilidade e validem a autenticidade dos medicamentos é extremamente necessária. Controlar a circulação e a comercialização destes produtos facilitaria ações pontuais contra cada um dos problemas apontados, pois seria possível identificar a origem, o destino e a localização exata das medicações. Também em situações mais simples, como a necessidade de recolhimento de um lote de remédios, um sistema de rastreamento seria de grande utilidade.

A melhoria da malha viária, além de contribuir para a logística do setor, também teria impacto direto na segurança do transporte de medicamentos. Para evitar a alta incidência de roubos seria ainda necessário um maior intercâmbio de informações entre os Estados, para facilitar o acompanhamento da movimentação de cargas.


Este intercâmbio transcende a questão da segurança. A troca de informações com entidades da indústria, do comércio e universidades pode proporcionar um avanço nas atividades da cadeia de distribuição. A tecnologia é outro fator que pode aprimorar todo o processo realizado pelas distribuidoras. O e-commerce, por exemplo, otimiza a rotina operacional, possibilitando um maior controle sobre emissão e trânsito de notas fiscais e avisos de embarque de cargas.

Por fim, a recomposição das margens de lucro e prazos a serem ajustados pelas indústrias aos distribuidores e a redução da carga tributária seriam as principais ações que auxiliariam na sustentabilidade das distribuidoras e também trariam benefícios para todos os envolvidos, principalmente para os consumidores. O setor farmacêutico sofre com a elevada taxa tributária de 38% sobre o PIB. Recentemente, o governo anunciou a redução de IPI para a linha branca. Por que não aplicar a mesma medida para produtos que são indispensáveis para a vida do consumidor? A redução de IPI ou a isenção de imposto sobre medicamentos torna-se necessária diante das altas taxas cobradas do setor farmacêutico.

Como visto, são vários os obstáculos. Mas as soluções estão aos nossos olhos e são pautadas pela melhoria de todo o processo que envolve a dinâmica do setor. Com amparo dos órgãos públicos e da iniciativa de entidades do varejo, atacado e indústria, o setor farmacêutico brasileiro poderá caminhar para um melhor desenvolvimento. A população agradece. 

* Luiz Fernando Buainain é presidente da Abafarma – Associação Brasileira do Atacado Farmacêutico