Combate à informalidade faria PIB crescer 1,5%

Por ETCO

Autor: Ronaldo D´Ercole

Fonte: O Globo Online, Economia, 08/06/2004

SÃO PAULO. Longe de ser uma tentativa de contornar os problemas sociais do Brasil, o elevado índice de informalidade de nossa economia afeta diretamente a produtividade das empresas e impede que o país cresça no mesmo ritmo de outras economias emergentes. Essa é a principal conclusão de um estudo da consultoria McKinsey encomendado pelo Instituto Brasileiro de Ética Empresarial (Etco).

O estudo cita dados do Banco Mundial (Bird), segundo os quais a informalidade já responde por 40% da renda bruta do Brasil, e estima que 55% da população ocupada do país trabalham na informalidade.

Com o objetivo de ilustrar os efeitos da informalidade no desempenho da economia brasileira, a McKinsey faz uma simulação: um programa bem-sucedido de combate a práticas como a sonegação, o contrabando e a pirataria, que conseguisse reduzir em 20% o nível de informalidade na economia, resultaria em um ganho extra de produtividade de 1,5% ao ano para o país.

McKinsey: informalidade atinge toda a economia

” Como a chave do crescimento econômico é a produtividade, pode-se estimar que o ganho adicional em termos de expansão do PIB (Produto Interno Bruto) também seria próximo dessa taxa ” disse o consultor Joe Capp, da McKinsey.

O estudo, que foi apresentado ontem durante o seminário “Brasil Paralelo versus Crescimento Econômico”, promovido pelo Etco, também constata que a informalidade já atinge, em maior ou menor grau, todos os setores da economia no Brasil.

Entre os campeões da informalidade estão o comércio, a construção civil e setores da indústria que usam mão-de-obra intensiva, como os ramos têxtil – vestuário e confecções. Na agricultura, o nível de informalidade da mão-de-obra ocupada chega a 90%.

” Criou-se um nocivo ambiente de desobediência civil generalizada e a sociedade encontra-se pouco organizada para reagir aos altos impostos, à burocracia excessiva, e à lentidão da Justiça, e reage ignorando a lei ” afirmou o presidente do Etco, Emerson Kapaz. ? Por isso, temos de trabalhar para sensibilizar o governo e também a sociedade sobre a gravidade do problema.

Para economista, Brasil lembra “um grande Paraguai”

Eduardo Giannetti da Fonseca, economista da Universidade de São Paulo (USP) que foi um dos debatedores do seminário, chegou a afirmar que o Brasil, de certa maneira, já lembra “um grande Paraguai”.

” As coisas estão se encaminhando para uma direção ruim, e o ambiente que se tem no país não favorece o aumento da produtividade ” disse o economista.

O presidente do Conselho de Administração do Grupo Pão de Açúcar, Abílio Diniz, recorreu a um dado apresentado pela McKinsey, segundo o qual a sonegação no varejo de alimentos aumenta em 300% a lucratividade do comerciante informal. Em termos de comparação, no México, país que tem uma carga tributária muito menor que a do Brasil, esse ganho não passaria de 75%.

” Não existe logística, tecnologia da informação, eficiência e produtividade que compensem os ganhos da informalidade ” disse Abílio Diniz.

Professor destaca aspecto cultural do problema

O economista e professor da Universidade de Princeton (EUA) José Alexandre Scheinkman destacou o “aspecto cultural” da informalidade no país, mas advertiu que o problema é sério e, por isso, as reformas estruturais, especialmente a tributária, devem contemplar esse aspecto da economia nacional.

” A questão é muito importante e, se não for atacada o Brasil, não vai progredir ” afirmou Scheinkman.