Especialistas apontam irresponsabilidade fiscal como origem da tensão nos mecados europeus
Autor: Marta Sfredo
Fonte: Zero Hora Online – Porto Alegre/RS – 08/05/2010
Para alguns, são cinco porquinhos tremendo diante do mercado mau que sopra à porta. Para outros, é o Club Med expondo rachaduras provocadas pela má conservação. Certo é que a semana terminou expandindo o temor das fronteiras da Grécia para um grupo maior de países europeus. Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha passaram a ser simplesmente os Piigs, um acrônimo que é foco da inquietação de um mundo ainda traumatizado pela crise do final de 2008 está o alcance da nova desordem internacional.
– A Europa corre o risco de passar por uma crise da dívida semelhante à que a América Latina enfrentou nos anos 80 – adverte Mailson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda.
Embora admita que a comparação não é perfeita, Mailson vê origem idêntica: anos de irresponsabilidade fiscal. Ou seja, gastança de dinheiro público animada pela dupla que movimentou a fase anterior à crise, crédito farto e barato.
– Não é pequeno o risco de contágio. É preciso estancar a sangria para evitar que se transforme em hemorragia. Se os líderes europeus não restabelecerem a confiança, pode ser uma tragédia. Aí, estaremos diante de uma crise com contornos semelhantes, se não mais graves, aos da quebra do Lehman Brothers – avalia Mailson, mencionando o episódio que deflagrou a crise de 2008.
Nem todos os prognósticos são tão pessimistas. Embora não considere possível limitar a crise à Grécia, o também ex-ministro Marcílio Marques Moreira avalia que o preço aos demais europeus pode ficar restrito a juros mais altos na rolagem de suas dívidas. Mas concorda que a saída depende da resposta à desconfiança à capacidade de pagamento.
Está em xeque um dos mais ambiciosos projetos políticos do continente, reforça João Marcus Marinho Nunes, professor da Fundação Getulio Vargas:
– O euro acabou, e a Grécia foi o estopim. Como está, os 16 países da zona do euro não têm instrumentos para se ajustar. Se insistirem, o risco é virar um abraço de afogados, com um puxando o outro para o fundo.
Com taxas de câmbio e juro definidas para todos pelo Banco Central Europeu, cada país não tem autonomia para definir políticas monetária e cambial, que costumam acomodar solavancos econômicos. Os tremores de um calote grego já sacudiram as bolsas e os mercados de câmbio. A questão é se, a exemplo do terremoto com epicentro nos Estados Unidos, este vai sacudir a economia real. Marcílio aposta nos amortecedores asiáticos – China e Índia –, e na recuperação dos EUA, que considera “impressionante”, para prever efeitos menos graves no dia a dia dos brasileiros, mas alerta que o país deve tirar lições da consequência da gastança descontrolada.
– A tempestade é nos países ricos. Pode até sobrar granizo para outros, mas claramente não vão, a curto e médio prazo, sofrer tanto. As crises do século 21 são dos ricos, assim como as do século 20 eram dos subdesenvolvidos, emergentes, ou como quisermos chamar – define Marinho Nunes.
Reflexos no Brasil
Com epicentro na Grécia e reflexos em toda Europa, o novo abalo global suscita novas discussões sobre os impactos no Brasil. Os primeiros já ocorreram, na forma de desvalorização de ações e de alta do dólar em relação ao real. Se vão parar por aí ou se existe o risco de um tremor mais forte é uma questão que está nas mãos dos líderes europeus. A aposta predominante é a de que, em interesse próprio, farão todo o possível para conter os estragos à menor área possível. Mas como a missão de limitar o contágio na Europa não é fácil, é melhor prestar atenção para evitar um solavanco maior por aqui.
– No Brasil, o efeito deve ficar na bolsa e no câmbio. Mas há uma lição que não se pode ignorar. Temos muito dever de casa a fazer. Estava havendo euforia, e até certa soberba, que não são boas conselheiras. Os gastos do setor público crescem sem parar, e estamos vendo o que ocorre com quem não toma cuidado com as contas – adverte Marcílio Marques Moreira, ex-ministro da Economia.
Há três meses, quando a situação da Grécia não havia se deteriorado ao nível atual, o ex-secretário da Fazenda do Estado Aod Cunha limpou sua carteira de ações e passou a aconselhar seus interlocutores a adotar posição mais cautelosa. Agora que está mais clara a dificuldade de limitar o abalo aos gregos, até porque bancos de outros países europeus são credores dos títulos sob ameaça de calote, o economista já faz cálculos:
– Vamos sentir uma tremida forte. A bolsa deve cair abaixo de 60 mil pontos (na sexta-feira, o fechamento foi em 62.870), e se a situação se agravar, até a 50 mil.
Uma “imensa reestruturação” das dívidas também é uma saída que Aod vislumbra para a crise. Ele não vê condições sociais e políticas para um aperto de gastos do tamanho que seria necessário ao ajuste. A combinação dos dois instrumentos, a renegociação dos débitos e medidas de controle fiscal comporiam a solução. Mas Aod descarta uma reprise do impacto da crise de 2008, que provocou queda na produção da indústria, desemprego e um ano de estagnação.
– Não vai ser como em 2008. Mas no próximo ano, em vez de crescer 5%, talvez cresçamos 2% ou 3%. Neste ano, o Brasil acelerou demais, e não temos capacidade para crescer tudo isso no curto prazo.
Neste domingo os europeus vão mostrar se têm o remédio para evitar novo contágio global ou se ainda resistem a financiar a irresponsabilidade dos gastadores.
POR QUE PIIGS? O acrônimo – palavra formada pela primeira ou primeiras letras de um conjunto de palavras – com apenas um ‘i’ começou a ser usado pela imprensa britânica para se referir ao mau desempenho econômico de Portugal, Itália, Grécia e Espanha (Spain, em inglês). O termo era usado na Europa desde a década de 90 para se referir aos países do sul da Europa. A revista The Economist e os jornal The Times e Financial Times disseminaram o uso, mesmo sob protestos, já que pig, em inglês, significa porco. Depois, a Irlanda foi somada, formando o Piigs. Entre o final do ano passado e o início deste, o acrônimo foi popularizado com o agravamento das preocupações sobre suas dívidas. Ironicamente, surgiram versões que incluem a Grã-Bretanha nesse grupo e atualizam o nome para Piigs.
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