McDonald’s volta a trabalhar sua imagem de maneira agressiva

Por ETCO


Por Sonia Racy, O Estado de S. Paulo, 27/02/2005

O McDonald’s sofreu um revés muito grande nos últimos três anos, alvo de campanhas contra a obesidade que culminaram com o lançamento do filme Super Size Me, sensação do Festival de Sundance, em janeiro de 2004. O filme mostrava seu diretor, durante um mês, alimentando-se exclusivamente de produtos oferecidos pela rede de fast-food. Não bastasse isso, em abril, a empresa perdeu seu CEO, Jim Cataloupo, responsável começo de uma enorme campanha publicitária, iniciada em 2002, que visava justamente a descolar o problema de obesidade do consumo de fast-foods. Foi ele o responsável por mexer em cardápios, adotando ofertas mais lights. Teve sucesso. No dia de sua morte, as ações do McDonald’s estavam cotadas pelo dobro do que valiam em abril de 2003. O fato é que, desde então, o grupo vem trabalhando na sua imagem de maneira agressiva, amenizando a crise.

Convidado a responder perguntas da coluna deste domingo, o argentino Sergio Alonso, que assumiu a presidência do McDonald’s do Brasil em janeiro de 2004, justamente no ápice da crise nos EUA, não fala sobre o filme ou sobre concorrentes que conquistaram espaço neste gap de tempo. Mas admite que veio ao Brasil com a missão de colocar ordem na casa, em meio a divergências com os franqueados. Aqui ele conta um pouco das mudanças da rede no Brasil e no mundo, de concorrência…


O McDonald’s teve problemas com seus franqueados no Brasil. Foram resolvidos? Estão sendo. Já fechamos acordos com diversos franqueados litigantes, recomprando os restaurantes daqueles que desejavam deixar a empresa, seja para seguir outros rumos profissionais, seja por outros motivos. E as negociações continuam. Hoje, contamos com 91 franqueados, que operam 148 restaurantes da marca, responsáveis, em 2004, por 32% do faturamento da empresa como um todo.


No mundo, o sistema de franquias funciona de forma diferente do Brasil? Não. O sistema é o mesmo. A diferença está na participação dos franqueados e da corporação no número de restaurantes. No Brasil, 27% das lojas são franqueadas, enquanto em todo o mundo este número atinge 80%. Os motivos são vários, mas sobretudo o marco regulatório do segmento de franquia no Brasil. Ele, aliás, está sendo discutido no Fórum Setorial de Franquia Empresarial, uma iniciativa do governo federal. A principal proposta do Fórum é a revisão da Lei de Franquias, que está defasada. É preciso que o texto legal deixe bem claros os direitos e deveres de franqueados e franqueadores, o que não ocorre hoje.


Como é que a entrada do Burger King afeta a empresa? Quem são os principais concorrentes do McDonald’s no Brasil? Na verdade, nosso grande adversário no Brasil é a informalidade, que domina nada menos do que 70% do setor de refeições fora de casa. Esta informalidade atinge vários níveis e, com isso, quem não paga imposto também não registra seus funcionários. O mesmo raciocínio se aplica à cadeia produtiva destes estabelecimentos. Se uma empresa não emite notas, também não exige nota de seus fornecedores. Só para você ter uma idéia, o McDonald’s recolhe cerca de R$ 266 milhões por ano em impostos e contribuições tributárias.


Há como mudar este quadro? Sim, mudando impostos. E um bom exemplo é o ICMS no Estado de São Paulo, que foi reduzido para 3,2% em 2000. O que aconteceu? A base de contribuição se ampliou, aumentando a arrecadação do setor.


O McDonald s é considerado o mais completo sinônimo de fast-food e trash-food. Hoje, vocês oferecem também uma comida mais light e lançaram campanhas ligadas à vida saudável e qualidade de vida. Imposição dos consumidores? Sim, bem como a dimensão que a questão qualidade de vida passou a ter nos últimos anos. No McDonald’s, o planejamento dos novos produtos começou há dois anos, passando por testes de fornecedores e de qualidade dos insumos. Hoje, as novas saladas já são um sucesso. Elas chegaram ao cardápio no fim de dezembro do ano passado e agora, em janeiro, batiam recorde: foi servido 1 milhão de saladas em nossos restaurantes no País, 40% a mais do que em igual período de 2004.


Como o McDonald’s garante a qualidade trabalhando com 100% de terceirização? De várias maneiras. No Brasil, por exemplo, a empresa estimulou três de seus principais fornecedores a construírem, em São Paulo, um complexo de produção e distribuição, batizado Cidade do Alimento. Custou mais de US$ 70 milhões e foi erguido pela Braslo (carnes), Martin-Brower (distribuição) e FSB Foods (pães).


Qual o faturamento da empresa aqui? Que porcentual isso representa do faturamento mundial? Os números de 2004 ficaram bem próximos a R$ 1,9 bilhão, crescimento expressivo diante do faturamento de 2003, quando obtivemos R$ 1,7 bilhão. Os números de 2004, mundiais, ainda não saíram. Posso dizer que o volume de vendas a clientes em 2003 foi de quase US$ 50 bilhões, registrando um lucro de US$ 1,471 bilhão.


Quanto do mercado de fast-food é dominado pelo McDonald’s? No Brasil e no mundo? O Brasil está entre os oito principais mercados da empresa, tendo à sua frente apenas países de Primeiro Mundo como EUA, Canadá, Austrália e Japão. O fato é que o McDonald’s é hoje a maior empresa do segmento de restaurantes de serviço rápido no mundo. Temos 31.129 restaurantes, em 119 países, por onde passam 48 milhões de clientes por dia.


Existe McDonald’s na Índia? Como operar em um país onde a vaca é sagrada? Assim como no Brasil temos produtos como o McFruit de Maracujá, a tortinha de banana ou o pão de queijo, na Índia desenvolvemos um menu especial. Não comercializamos produtos que utilizem carne de vaca ou de porco. São oferecidas refeições à base de outras carnes e de vegetais. O Big Mac indiano, por exemplo, chamado Maharaja Mac, é preparado com dois hambúrgueres de carne de carneiro.