Os perigos da automedicação

Por ETCO
14/10/2007

Fonte: Programa Fantástico, Globo, 14/10/2007

Vídeo-reportagem - Automedicação


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Quando você sente uma dor de cabeça, pega um resfriado ou tem insônia, o que você faz? Procura um médico ou toma remédios por conta própria? Uma pesquisa inédita revela que seis em cada dez brasileiros escolhem a automedicação, um hábito perigoso que faz cada vez mais vítimas.



“Eu me medico desde os 15 anos. Pegava a bula, lia a indicação, ia lá e tomava”, conta a estudante Amanda Diniz.



“Eu passei a meu automedicar porque eu não acreditava muito em hospital. Eu pensei que ia melhorar rápido tomando esses remédios”, dix o publicitário Armando Ribeiro.


Armando tinha sérios problemas de circulação. “As pernas doíam, as solas dos pés pareciam que estavam em carne viva”, lembra.



Mas ele só se medicava ouvindo palpites.


“Toma um por dia. É uma dose mínima, que não vai fazer mal a você. Aí, eu tomei”, conta o publicitário.



A estudante Amanda Diniz passa dia e noite se medicando.


“Eu acordo, já coloco logo o remédio no nariz. É a primeira coisa que eu faço. Vou dormir com o descongestionante do lado. Eu tenho um na sala, tenho no meu quarto, um na bolsa e dois de reserva. É muito. Eu não consigo ficar sem. Sou viciada totalmente”, admite.



Amanda e Armando viraram protagonistas de casos dramáticos, vítimas da automedicação.



“A internet meio que alimenta esse meu vício. Se eu achar que eu estou com náusea, eu pesquiso sobre náusea na internet, vejo quais são os sintomas, o que eu posso tomar. Aí é só colocar: ‘remédio para náusea’. A internet vai de dar tudo”, aponta Amanda.



A equipe de reportagem do Fantástico tentou comprar pela internet dois medicamentos de uso controlado: a Nandrolona, um esteróide anabolizante que alguns atletas usam para aumentar a massa muscular, mas que pode até causar câncer; e o Femproporex, um perigoso inibidor de apetite.


“O risco é a dependência química. É uma dependência mesmo. É como se fosse uma dependência à cocaína”, alerta o professor de toxicologia clínica da Universidade Federal Fluminense (UFF), Luiz Querino.



Uma semana depois, a encomenda chegou. Vieram as duas caixas de Nandrolona, de tarja vermelha, e a outra com o Femproporex, de tarja preta.


“Tem comunidades próprias para isso, para gente que se automedica”, mostra a estudante Amanda Diniz.



No meio da multidão, quantas são as pessoas que tomam remédio por conta própria? E quantas procuram o médico antes? Depois de ouvir cerca de 28 mil pessoas, em quase 50 países, pesquisadores chegaram a uma conclusão: mais da metade da população hoje costuma se automedicar.



A pesquisa revela a queixa número 1 dos entrevistados: dor de cabeça.


“Tomo analgésico direto, remédio para dor de cabeça, dipirona. Para mim, é igual à água”, confessa Amanda.



Em segundo lugar, aparece o resfriado, com 31%. Em terceiro, o distúrbio do sono, com 30%. Ao todo, 32% das pessoas ouvidas disseram que vão ao médico ou ao dentista quando ficam doentes; 14% disseram que não vão ao médico nem tomam remédio; e 54% tomam remédio por conta própria.



“Eu tomo remédio caseiro”, conta o açougueiro Gilmar Silva.



“Eu me trato em casa mesmo. Geralmente, dá certo, sim”, comenta Maria Inês dos Santos, que está desempregada.



No Brasil, esse índice é ainda maior: 57%.



“Não sabia que fazia mal”, afirma a costureira Josefa Figueiredo. Ela teve que passar por uma transfusão de sangue. Estava tomando um analgésico comum e teve hemorragia.



“A senhora está tomando quatro por dia? Eu não sei como a senhora ainda está viva”, disse a costureira, referindo-se à reação do médico no hospital.



E os remédios controlados? Será que é fácil comprar sem receita? A equipe de reportagem do Fantástico pediu ao professor Luiz Querino uma lista dos medicamentos que mais aparecem nos casos de intoxicação e internação hospitalar.



Com a lista, e sem receita médica, fomos às ruas. Começamos com um antibiótico: amoxilina. Depois, um broncodilatador para crianças com o peito congestionado. O medicamento é usado para fazer nebulização.



“Uma gota a mais para uma criança de baixo peso pode causar uma intoxicação. Pode vir a causar um aumento da freqüência cardíaca, uma taquicardia nessa criança”, alerta a representante do Centro de Controle de Intoxicações da UFF, Lília Ribeiro Guerra.



Conseguimos comprar até antidepressivos. Nenhuma das quatro farmácias por onde passamos, no Rio de Janeiro, se negou a vender remédios de tarja vermelha. Em uma delas, na falta do antidepressivo que pedimos, o atendente recomenda outro.



“Dentro da necessidade, esse aí pode ser até melhor. Esse acalma bem, relaxa bem”, disse o vendedor da farmácia.



Dois minutos depois, o mesmo homem sugere um terceiro medicamento.



“Mas precisa saber se a pessoa está habituada a tomar. Esse é o bromazepam. É bem mais forte”, continua o vendedor da farmácia.



“É chamado de um tranqüilizante maior, tanto que é tarja preta e cria o que nós chamamos de dependência química”, explica o professor.



O vendedor da farmácia sabe o que está fazendo: “Por isso que a gente não pode negociar o produto sem a prescrição do médico. Só vou tirar da caixa, tá legal?”.



Ele que vende sem a caixa porque ela contém o número do lote do medicamento, o único jeito de rastrear quem vendeu.


Quando Armando Ribeiro, o publicitário que não acreditava muito em hospital, procurou o médico, já era tarde.


“Foi uma trombose. Aí que eu descobri o que eu fiz comigo mesmo. Eu já sabia que eu ia acordar depois da anestesia, se acordasse, sem a perna esquerda”, conta Armando.



A estudante Amanda Diniz não consegue se livrar da dependência.


“É uma coisa errada, mas é mais forte que eu. Quando eu vejo, eu já comprei o remédio, já tomei. Vou comprar sempre”, afirma.



“Toda substância é um veneno. Depende da dose”, finaliza o professor Luiz Querino.

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