Deus e os náufragos no país da transgressão

livro-cultura-trangressSerá que o Brasil um dia vai conseguir vencer a corrupção, a sonegação de impostos, a pirataria e outras pilantragens do gênero?

O antropólogo Roberto DaMatta tratou desse assunto de forma bem humorada em um seminário sobre as razões culturais por trás da desobediência às leis no Brasil, realizado há alguns anos pelo ETCO-Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial e pelo Instituto iFHC.

No evento, que deu origem ao livro Cultura das Transgressões no Brasil – Lições de História (Saraiva, 133 pag., R$ 52), ele contou duas anedotas e apresentou uma conclusão otimista. Relembrar os três pensamentos do antropólogo ajuda a alimentar a esperança. Confira:

 

Anedota 1: Deus e os presidentes

Um dia, Deus mostrou seu lado benevolente e concedeu responder com Sua aterradora sinceridade divina a uma pergunta, e somente uma, a ser feita pelos presidentes Mikhail Gorbachev, Ronald Reagan e José Sarney, então presidentes da União Soviética, dos Estados Unidos e do Brasil.

Escolhido para ser o primeiro, Gorbatchev perguntou se a União Soviética poderia sobreviver sem o Partido Comunista e conflitos étnicos. O trovão que representava a voz de Deus disse: “Gorbatchev, um dia tudo ficará em paz no teu país, mas não será na tua administração.”

Em seguida, Reagan perguntou quando os conflitos raciais iriam terminar nos Estados Unidos, ao que Deus respondeu: “Ronald, um dia tudo vai se resolver, mas não será na tua administração.”

Finalmente, quando chegou a vez de Sarney, ele perguntou quando a inflação terminaria no Brasil. E Deus, no seu infinito realismo, respondeu: “Sarney, um dia vocês vão vencer a inflação, mas não será na MINHA administração”.

 

Anedota 2: Náufragos de 4 países

Um navio com náufragos estava à deriva no oceano Atlântico. Dentro tinha um inglês, um russo comunista, dois americanos, três brasileiros e dois cínicos.

Um cínico vira para o outro e diz:

– Quer apostar que eu faço todos eles pularem na água?

– Duvido!

Chamou o inglês e falou:

– As tradições da marinha inglesa demandam que o senhor pule na água.

O inglês pulou.

Aí chamou o russo e disse:

– O Partido Comunista exige que o senhor pule na água.

Ele pulou.

Com os americanos foi a maior tranquilidade:

– Há um seguro de 5 milhões de dólares se os senhores pularem na água.

O dois pularam.

Os três brasileiros estavam conversando entre si e não tinham prestado atenção em nada. O cínico chegou até eles e falou:

– Senhores, é proibido pular na água.

Os três pularam.

 

  • A conclusão otimista

 

O antropólogo Roberto DaMatta usou a primeira anedota para lembrar de algo que as novas gerações talvez não consigam nem imaginar: o quanto era difícil de acreditar, nos anos 80 e 90, que o Brasil conseguiria vencer a inflação. Naquela época, o país emendava um plano econômico atrás do outro, sem sucesso. A anedota exprime, segundo DaMatta, “o espírito do tradicional e bem estabelecido catastrofismo brasileiro segundo o qual o país não tem jeito”, uma vez que “nem Deus seria capaz de promover a cura do chamado ´dragão inflacionário´”.

Mas, como lembrava o antropólogo no evento promovido pelo ETCO, o país conseguiu vencer a inflação, demonstrando que a sociedade brasileira tem a racionalidade necessária para enfrentar problemas complexos que exigem um combate sério e permanente. E ele expressava a opinião de que, cedo ou tarde, o Brasil também conseguirá vencer a batalha contra a corrupção. “Estou convencido de que o sucesso no controle de uma dimensão fundamental da economia do Brasil como a inflação forma o pano de fundo de uma reação crescente diante dos escândalos motivados pelas transgressões”, afirmou. Se ele tiver razão, um dia a segunda anedota, que apresenta a transgressão como um traço típico do brasileiro, também deixará de fazer sentido

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