Campanha busca mudar mentalidade de brasileiros com relação à pirataria

Fonte: O Globo, 03/12/2010

SÃO PAULO – Estima-se que o mercado de produtos piratas – CDs, DVDs, eletroeletrônicos, brinquedos e até remédios – movimente a soma de R$ 120 bilhões ao ano no Brasil. Só o governo deixa de ganhar em impostos R$ 30 bilhões. O prejuízo a empresas produtoras dos bens oficiais é incalculável. Quase metade dos brasileiros compram pirataria, amostragem que varia pouco conforme classe social ou grau de escolaridade. Os dados são o resultado eloquente de uma cultura na qual a pirataria não é crime e tampouco lesa empresas e profissionais.

– Há uma visão romântica de que quem produz e vende pirataria é um coitado desempregado. É uma ilusão. Quem trabalha com pirataria está ligado ao crime organizado – afirma o secretario-executivo do Ministério da Justiça e presidente do Conselho Nacional de Combate à Pirataria, Rafael Thomaz Favetti. – Muitas vezes, operações de apreensão de produtos piratas levam os policais a uma máfia, que comete outros crimes como tráfico de pessoas e trabalho escravo – completa Favetti, citando como exemplo uma apreensão recente no Distrito Federal que resultou na prisão de 33 chineses.

Mas mudar comportamentos e mentalidade não é simples. Parte do esforço começa nesta sexta-feira com a veiculação em 600 salas de cinema de uma campanha de conscientização criada em parceria pelo Ministério da Justiça com a Agência Nacional de Cinema (Ancine). São quatro filmes de 45 segundos feitos pela agência DM9, com a participação dos cantores Claudia Leitte e Rogério Flausino, vocalista do Jota Quest. Além dos cinemas, DVDs trarão um dos filmes da campanha em seu conteúdo. A iniciativa é importante, mas deve ser a ponta de um iceberg, cuja fundação é formada por educação e medidas repressivas. É a avaliação de Luiz Fernando Garcia, diretor da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).

– Uma campanha publicitária sozinha não muda comportamento. Tem que ser parte de um pacote completo que inclui educação, cujos efeitos aparecem no médio e longo prazo, e repressão – explica Garcia, comparando a campanha de combate à pirataria com campanhas de prevenção à AIDS e de segurança no trânsito (“Se beber, não dirija”).

Garcia elogia o tom mais positivo da nova campanha. Em anos anteriores, o governo preferiu associar a pirataria ao crime organizado nas peças publicitárias, o que não funcionou bem, na avaliação do especialista.

– Prefiro a campanha atual do que as anteriores. A associação com o crime organizado não convenceu. O público achou o vínculo forçado – avalia Garcia. – Reforçar o lado positivo costuma funcionar melhor. Mas uma parte do discurso é frágil. Artistas famosos podem ser uma força para valorizar o trabalho de criação. O outro lado desta moeda é o risco de alguns pensarem: “ah, eles já ganharam dinheiro demais” – prevê o acadêmico.

Para o ministro da Justiça, Luiz Paulo Barreto, outra frente no combate à pirataria é o acesso universal aos bens. Barreto lembrou o baixo número de salas de cinema no Brasil e sua concentração em grandes cidades.

– A pirataria chega a ter mercados exclusivos no Brasil. É preciso atacar a oferta de produtos piratas combatendo a demanda, assim como acontece com as drogas. E para reduzir a demanda, é preciso oferecer acesso ao bem de alguma forma, seja em cinema, videolocadora, TV aberta ou fechada – acredita Luiz Paulo Barreto.

O presidente da Agência Nacional de Cinema (Ancine), Manoel da Costa Rangel, afirma que com renda e acesso, o brasileiro prefere consumir o produto original, até para se sentir incluído. Rangel acredita que além da campanha e da repressão, o setor audiovisual esforça-se para se rearranjar, oferecendo preços mais competitivos e se protegendo de vazamentos internos de conteúdo.

– O problema de acesso ao produto é importante, mas vejo esforços de solidariedade na cadeia econômica. DVDs e CDs são, sem dúvida, os produtos mais pirateados no Brasil – conclui Rangel, otimista ao observar o recorde de bilheteria de filmes nacionais em 2010.

 

Compartilhe