O desafio de evitar um colapso sem premiar os especuladores

Por ETCO
23/09/2008

Fonte: Amanhã (Economia), 23/09/2008

André Franco Montoro Filho [ETCO]O socorro do governo norte-americano a grandes bancos de investimento, seguradoras e corretores que, para turbinar sua rentabilidade, correram riscos que não conseguiram suportar, atiça no mundo inteiro um debate sobre o aspecto ético das medidas. Na visão do economista André Franco Montoro Filho, a questão deve ser desdobrada em dois aspectos. De um ponto de vista econômico, diz, as medidas do Tesouro e do Banco Central dos Estados Unidos se justificam por evitar um colapso financeiro de conseqüências terríveis para milhares de pessoas. Sob uma perspectiva ética, no entanto, é necessário punir os responsáveis pela crise. “Mas esta não é uma tarefa fácil”, disse o presidente do Etco – Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial. A seguir, a íntegra da entrevista que André Franco Montoro Filho concedeu a AMANHÃ, momentos antes de palestrar em um evento sobre “Desburocratização e Eficiência Gerencial” promovido pela Câmara Britânica de Indústria e Comércio no Brasil (Britcham/RS). 


À luz da ética concorrencial, o governo norte-americano agiu bem ao utilizar dinheiro público no socorro a bancos, corretoras e seguradoras ameaçados de quebrar?


A tendência lá era de um risco sistêmico. Se o governo não interviesse, seria pior para todo o mundo – para a economia e para os próprios contribuintes americanos. A obrigação de toda autoridade monetária e financeira é impedir exatamente essa quebra do sistema. Agora, isso não pode ser feito, a meu ver, sem que os responsáveis sejam punidos. Isso não é fácil de separar, mas vejo que o Congresso americano está se procurando não beneficiar aqueles que foram os causadores.

Os causadores não teriam sido os próprios bancos que estão sendo socorridos?


Quem o governo está procurando socorrer são os depositantes. Porque se o banco quebrar, claro que o banqueiro perde alguma coisa, mas quem vai perder mais são os depositantes, aqueles milhares ou milhões de pessoas que fizeram as suas aplicações, suas poupanças e criaram as suas reservas até para aposentadoria. Tudo vira pó. Isso é que é preciso entender dentro do funcionamento do sistema financeiro. Os banqueiros são pessoas que aplicam não só os seus recursos, mas o dinheiro de terceiros. Numa queda geral do sistema, perde toda a população. É neste sentido que se justifica, moralmente a intervenção do Estado: a defesa da economia popular, evitar que as pessoas que têm fundo de renda fixa, fundo de renda variável, fundos de pensão de demais sistemas de aposentadoria saiam prejudicados.

Como o senhor acha que os bancos comerciais, que não estão envolvidos nesse problema, vêem essa atitude inusitada do Banco Central dos Estados Unidos de socorrer bancos de investimento?


Eu acredito que há um apoio generalizado para que não se deixe a situação chegar a uma catástrofe financeira, que aí atingiria tudo o mundo. Não é uma coisa segmentada. Os bancos comerciais também acabariam sendo atingidos se não se conseguisse controlar a crise dos bancos de investimento.

Não se trata de um benefício aos causadores de uma grande especulação?


Sim, foi uma grande especulação. Mas o Lehman Brothers não especulou como dinheiro dos seus donos e sim com o dinheiro de milhares de pessoas. Esse é o ponto que diferencia o sistema financeiro. E agora quem perderia mais não seria o dono do banco, embora ele perca alguma coisa, e sim a população. E, se não se parar isto, vai ser uma crise. Vejamos o seguinte: anos atrás houve a questão do Banco Meridional no Rio Grande do Sul. E a campanha que foi feita no Rio Grande do Sul não era para defender os donos do banco. Era para defender aquelas pessoas que haviam aplicado, os milhares de depositantes que estavam ameaçados de perder seus recursos. Então o que se precisa é encontrar mecanismos para garantir os recursos de milhares de pessoas de boa fé que fizeram as aplicações. E punir aqueles que foram irresponsáveis no manejo do dinheiro de terceiros. Esse é que é o grande desafio.

Essa crise não produz efeitos morais mais amplos?


Vai sempre deixar seqüelas, em termos de você, em certo aspecto, estar estimulando o comportamento especulativo no futuro. Mas ao pesar essa possibilidade com a perda potencial de milhões de pessoas no mundo afora, eu acredito que a balança está pendendo para o reconhecimento de que as medidas eram necessárias, e de que é preciso punir os responsáveis – o que não é uma tarefa fácil.

Essa situação, se não sanada, se equipararia à Grande Depressão?


É o risco que se tem. De uma forma diferente, mas é algo similar à que houve com as corridas bancárias. É uma corrida bancária de forma diferente, mas é o mesmo fenômeno, no qual você tem uma situação de pânico e de falta de recursos que acaba paralisando todo o sistema. E o sistema financeiro só funciona se houver essa confiança de renovação dos créditos. Eu acho eu há, claramente, essa perspectiva. Se nada for feito, claramente se teria uma crise daquelas proporções.

O que deve mudar a partir desta crise?


Eu acho necessário que, junto com as medidas que estão sendo tomadas, sejam estabelecido novos critérios de regulação prudencial, de forma a evitar fatos similares no futuro. Da mesma forma como a crise dos anos 30 foi responsável pela criação até do Federal Reserve e de uma série de mecanismos que criaram o seguro depósito e evitaram crises e corridas bancárias naquela época. No momento, acontece uma corrida bancária diferenciada. O que se espere é que se crie uma regulação, de forma que haja mecanismos para evitar a repetição de fenômenos similares.