Trabalho, estabilidade e patriotismo

Por ETCO
23/05/2010

Autor: Cássia Almeida

Fonte: O Globo – Rio de Janeiro/RJ – ECONOMIA – 23/05/2010

“Tenho a eternidade toda para descansar”. Essa frase da professora Angela Lacerda, de 63 anos, sintetiza bem a importância que o trabalho assume na vida dos brasileiros. Pesquisa realizada pela Agência NovaS/B com mais de duas mil pessoas em todo o país traz essa característica de forma bem marcante nas escolhas das opções oferecidas pelos pesquisadores.

Angela dá aula em dois colégios públicos e nas horas vagas, que são poucas, costura bolsas que vende na Feira de Ipanema aos domingos: — Trabalho de domingo a domingo. Mesmo que ganhasse na Mega-Sena não diminuiria o ritmo. Só iria trabalhar com menos ansiedade.

Pela pesquisa, 72% dos entrevistados concordaram com a afirmação “trabalho sempre me deu prazer”. Para Angela, isso é patente. Aos 18 anos, começou a trabalhar. Quarenta e cinco anos depois, acorda às 5h30m e só para perto da meia-noite. Além do trabalho, ajuda a filha mais nova, de uma prole de cinco, a cuidar da neta. E visita diariamente a mãe acamada. E os filhos? Como professora, levava os filhos para escola. Enquanto trabalhava, ficava perto deles: — Trabalho para mim é muito importante. É a maneira de proporcionar coisas para os filhos.

Orgulho de ser brasileiro assume lugar de destaque A socióloga do Núcleo de Estudos Populacionais da Unicamp Elisabete Doria Bilac vê duas explicações para essa valorização do trabalho, que não diferencia classe de renda ou sexo.

A primeira está na boa conjuntura econômica. Mais emprego com carteira assinada e salários mais altos criam uma boa relação com o trabalho: — Tem um otimista nessa resposta. Além disso, o trabalho identifica o ser humano. Ele é mais respeitado quando trabalha.

Essa sensação de prazer até surpreende um pouco, diante do grau de informalidade (mais de 40% são trabalhadores sem carteira assinada) e desproteção no mercado de trabalho.

Outro fator é próprio da sociedade capitalista, com valorização em cima do trabalho.

A estabilidade é outro valor fortalecido na vida dos brasileiros.

Pela pesquisa, as perguntas que tratam de emprego público, com carteira assinada e o sonho da casa própria identificaram 39% dos entrevistados. A tradutora Daniela Madruga tem um sonho: conseguir um emprego público. A estabilidade financeira, principalmente depois da aposentadoria no setor público, é mais atraente: — Meu trabalho é incerto.

Posso ficar dois a três meses sem trabalhar. Isso causa ansiedade.

Conheço pessoas que chegaram à terceira idade e se aposentaram no serviço público e estão tranquilas hoje. Outros, do setor privado, estão passando dificuldades.

O marido é servidor público, pela insistência de Daniela. Mas a imprevisibilidade do seu trabalho impede Daniela de estudar para um concurso.

Homem provedor ainda é presença forte O avanço da mulher no mercado de trabalho, com mais de 50% delas em idade ativa (acima de 10 anos) trabalhando, ainda não conseguiu mudar um traço ainda marcante na sociedade: a ideia de que o homem é o provedor da família. As frases identificadas com esse perfil ganharam a preferência de 45% dos entrevistados.


— A mudança real é mais rápida do que o reconhecimento dela. Mantém-se o ideal de provedor, apesar desse modelo estar acabado. O modelo de provedor masculino único não existe mais — diz Elisabete.

Já a prioridade total para os filhos ganha força na sociedade.


Para o diretor-presidente da NovaS/ B, João Roberto Vieira da Costa, as mulheres estão conseguindo, cada vez mais, equilíbrio maior entre trabalho e maternidade: — Houve um distanciamento num primeiro momento. Esse conflito está mais bem resolvido atualmente.

Para a socióloga da Unicamp, o filho hoje é “um bem caro e raro”: — É um projeto de vida. É uma escolha. Diante disso, tornase a prioridade.


E o Brasil tem lugar de destaque na vida por aqui. Ser brasileiro, gostar de morar aqui e comprar produtos made in Brazil caracterizam o economista e engenheiro Thiago Reunalt, de 30 anos, dono da Hélice Consultoria.

Ele já morou fora do Brasil mais de uma dezena de vezes, mas não pensa repetir a dose: — Sou um apaixonado pelo Brasil. Em nenhum lugar do mundo tem um povo tão caloroso e acolhedor. É um país único.

Para Costa, há uma agenda recente no país que explica esse percepção.


— Há um círculo virtuoso, de fatos econômicos, sociais e até esportivos, como a Copa e as Olimpíadas, que ajudam a explicar esse patriotismo.

Mas o mergulho total na internet ainda é tímido entre os brasileiros, assim como a preocupação com o meio ambiente.


Aqueles que vivem plugados representaram apenas 3%, mas “em plena expansão”, para Costa, diretor da NovaS/B: — Mas a preocupação com o meio ambiente não aparece como prioridade. Ainda é distante do universo do brasileiro.

Trabalhando com administração e estudando Tecnologia da Computação, Cássio Padovani personifica esse grupo de plugados na internet. Vive na rede no trabalho, em casa, na faculdade.


— Tenho amigos que só conheço pela internet.

E o tempo para o namoro? — Minha namorada mora comigo.


Conseguimos arrumar um tempo. O problema é que só há um computador em casa