Três perguntas para José Luiz Alquéres

Administrador de grandes empresas públicas e privadas, nacionais e internacionais, o conselheiro consultivo do ETCO fala sobre o papel das empresas na questão ambiental e a relação entre sustentabilidade e ética concorrencial.

1)    Em 1972 foi realizada a Primeira Conferência Mundial sobre o Homem e o Meio Ambiente, conhecida como Conferência de Estocolmo. Para o senhor, que contribuiu ativamente na definição da posição brasileira diante do tema, o que mudou nesses 40 anos?

A posição brasileira tem sido, de um modo geral, reativa e retardada. Quase sempre achamos que é uma ingerência externa outros países, ou pessoas de outra nacionalidade, manifestarem preocupação com o que possa estar ocorrendo aqui.

Evoluímos sem dúvida, mas não largamos o bordão: “não aceitamos que o meio ambiente entrave o nosso desenvolvimento”. Em todos os escalões observamos a luta não apenas entre ideias e conceitos, mas até entre órgãos de governo, em torno de aprovação de projetos.

Não fazemos jus ao verde da nossa bandeira; devíamos trocá-lo por marrom, até criarmos consciência da nossa responsabilidade ambiental.

2)    O sr. defende que a solução para as questões da sustentabilidade passa, necessariamente, pelo maior envolvimento do setor empresarial. Que motivos o levam a acreditar nessa premissa e, na prática, de que forma deve ocorrer esse envolvimento?

Acredito que se deva olhar mais para o setor empresarial, porque governos e terceiro setor pregam no vazio, ou seja, dão declarações, assinam convênios e, quando conseguem uma ação efetiva, esta é negativa: parar algo, adiar algo para discutir, etc., com poucos ganhos objetivos. Pactos setoriais de diferentes segmentos empresariais (a começar pelos mais agressivos do ponto de vista socioambiental) e imposição de regras para comércio internacional verde por iniciativa empresarial, por exemplo, seriam ações mais eficazes. A verdade é que a degradação ambiental é filha de cadeias produtivas que só mesmo os produtores podem alterar e o farão se, ao clamor e vontade dos consumidores, se aliar um espírito empresarial inovador.

3)    É possível traçar algum paralelo entre a sustentabilidade empresarial e a ética concorrencial?  Até que ponto esses conceitos se sobrepõem ou se complementam?

A sustentabilidade empresarial – nos seus componentes econômicos, sociais e ambientais – e todo o abrangente conceito de sustentabilidade se foca na ética que deve presidir as relações do homem com a natureza e a ética concorrencial nas relações dos homens entre si e com suas instituições. Elas são, portanto, interdependentes. Não existe o ser “meio ético” ou “mais ou menos ético”. O “pouco ético”, tão usado coloquialmente, é uma aberração. Ou se é ou não. Que não se crie o modismo dos “cinquenta tons de ética”.

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